terça-feira, 28 de abril de 2009

PORQUE SOU CANDIDATO DE NOVO




PORQUE SOU CANDIDATO DE NOVO



Até o final do ano passado, eu não havia ainda decidido ser candidato de novo em Farmanguinhos. De fato, quando iniciei meu mandato como Diretor, tinha como certo que se tratava de uma injunção circunstancial, uma exigência do momento político para que a Fiocruz ingressasse numa outra fase de sua vida institucional, então comandada por Paulo Buss, mais aderida aos grandes projetos nacionais, e não apenas genericamente à saúde, como o era em seu passado recente.



E qualquer avaliação externa diria que conseguimos nossos objetivos, vitória que deve ser compartilhada com vários segmentos, de dentro e de fora de Farmanguinhos. Enfrentamos as crises interna – inadimplências herdadas – e externa – a queda de demanda por nossos produtos, em decorrência da descentralização das compras pelo SUS – e tivemos a coragem de não apenas fazer um “remendo”, mas nos transformar em ponta de lança de uma nova política institucional, com repercussões em todo o Governo e em toda a indústria farmacêutica e farmoquímica brasileira.



Apenas para se ter uma idéia: uma única de nossas iniciativas, o contrato de importação direta de insulina mais transferência de tecnologia trouxe aos cofres do Ministério da Saúde uma economia de R$ 200 milhões em 2007 e 2008.



E para citar uma iniciativa no campo da qualidade: nova modalidade de aquisição de princípios ativos adotada em Farmanguinhos encaminha proposta de Resolução da ANVISA para certificação dos mesmos além de ser convertida em Portaria Interministerial (128/08) que inaugura o uso do poder de compra do Estado para a defesa da economia do país.



Apesar disso tudo, as dificuldades financeiras de Farmanguinhos ainda não foram vencidas. Ademais, a reorientação operativa ainda não se fez por inteiro – é preciso prosseguir as mudanças e aprofundar a reestruturação interna para que Farmanguinhos possa ocupar seus novos papéis no país. E isto ocorre num momento marcado pelo encurtamento do mandato legal do Diretor, por acerto interno na Fiocruz definido agora em março de 2009.



Estamos num momento crítico. Farmanguinhos não pode dar um salto, como deu, e ficar no ar. Muitos processos estão em andamento, ou apenas iniciados, e por isso, num aparente paradoxo, a mudança melhor se faz com continuidade. Preocupados. companheiros daqui e parceiros externos, inclusive de várias áreas governamentais, me impuseram a candidatura. Por isso vamos à luta, não estamos brincando com a coisa pública.



Não é só o risco de retrocesso. Parar, apenas parar, por uma eventual falta de compreensão dos próximos passos, já seria jogar por terra o trabalho feito. Nosso exemplo foi seguido por outros laboratórios oficiais e eles estão correndo. Os inimigos, os que acham que o que importa num sistema de saúde pública é o lucro, já sabem como combater as ações colocadas até agora. Portanto, urge avançar nas propostas e não apenas continuar a mesma política. Será a hora de colocar isto em risco? Vamos pensar juntos: que outra proposta para Farmanguinhos e para a assistência farmacêutica foi feita nestes últimos anos? Quem não sabe propor, saberá continuar? Quem, até agora, não apresentou idéias próprias, saberá avançar?



Ademais, várias negociações só agora estão maduras e precisam ser deslanchadas, entre elas, com destaque, o chamado Comitê Farmanguinhos – criado pelo Ministro Temporão - para dar novas bases para a sustentabilidade e a reformulação jurídico-institucional de nossa unidade. Com esse projeto Farmanguinhos vai avançar inclusive na possibilidade de dar melhores condições de trabalho e remuneração a seus servidores, e acabar com a precarização de vínculos terceirizados.



Ninguém antes deu passos mais concretos, inclusive no conjunto da Fiocruz, para dar respeitabilidade a tais vínculos. Nenhum movimento de servidores deixou de ter o apoio explícito da Direção de Farmanguinhos e mesmo nossas relações políticas sempre estiveram ao alcance de nossa entidade agora sindical. Mentirá quem quiser capitalizar de qualquer modo afirmando que conquistou mais servidores estatutários para Farmanguinhos. As vagas originais pedidas pela Direção anterior eram 30 (apenas uma para pesquisa), e nem todas foram preenchidas. Chegamos a cerca de 90 novos servidores. E não foi fácil conquistá-los. Para isso foi necessário desafiar, chatear, argumentar, até a aprovação pelo CD da Fiocruz. Mas agora estamos todos aqui.



Resolvi aceitar também porque temos uma área importantíssima à qual não foi possível estar tão juntos como eu desejava: a que continua em Manguinhos e no Campus da Mata Atlântica, a pesquisa, como genericamente se designa. A proposta inovadora não foi totalmente absorvida, mas talvez seja tarde para realizar o que não pôde ser feito: é preciso agora invadir o futuro de Farmanguinhos, redesenhar o projeto para esse novo Farmanguinhos que nasceu em nossas mãos, nas mãos de todos seus trabalhadores.



De outro lado, tenho muito a apresentar se vierem falsear e estender a amplitude dos problemas que não conseguimos ainda resolver. É preciso deixar claro que, muitas vezes, quem critica jamais fez qualquer proposta, ou participou ativamente de qualquer atividade de Farmanguinhos. É um erro acreditar que palavras fáceis, não comprováveis, solucionam problemas.



Aceitei ser candidato, enfim, porque se enganam os que pensam que com a receita deixada podem fazer o bolo melhor. Nunca fizeram antes qualquer bolo, a não ser deixar aquele bolo de problemas para os outros resolverem depois. Os servidores de Farmanguinhos certamente não darão espaço para aventuras.



A festa democrática é também o culto da responsabilidade. Por isso, exponho humildemente, mas com orgulho, essa gestão, que é minha e de meus companheiros.



Alguns poucos se dispersaram, alguns, lamentavelmente, por falha nossa, outros, por não terem tido a oportunidade de viver o cotidiano de implantar o futuro institucional, afastados que estão no espaço físico e operativo.



Mas continuamos querendo reunir a todos de Farmanguinhos para cumprir nosso dever para com a sociedade brasileira.



Com o mesmo espírito de doação que trabalhamos dia e noite durante o carnaval para entregar o efavirenz, quando falhou a entrega a tempo do produto que o Ministério da Saúde havia importado.



Eduardo Costa.